Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão
A estrofe acima mostra a agonia e o temor que a população da época sentia quando a polícia se fazia valer do discurso da legalidade de ações, esta mesma legalidade que fazia com que as autoridades perseguissem e matassem a quem de vontade. Chico Buarque pelo intermédio da subliminaridade alerta as pessoas para a perseguição. “Era a dura”, com esta expressão ele associa a Ditadura todas às mazelas políticas. Constituindo um processo semântico neste contexto. Fazendo assim uma ponte entre o discurso e a realidade.
Acorda amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão
“São os homens” essa expressão é clássica para designar quem seriam as pessoas incumbidas da perseguição. Os homens em questão em uma analise de discurso, seriam os policiais, que comumente eram rotulados de homens da lei. “Eu não gosto de passar vexame” a análise vai além da vestimenta que estava sendo usada no momento da prisão. O vexame é o moral porque ao invés de ser preso um ladrão, está sendo no lugar um homem de bem vestido em uma pijama.
Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer
Nesta passagem chave da canção, Chico Buarque nos traz em uma forma direta e ao mesmo tempo sucinta o drama vivido pelos familiares de pessoas que eram detidas pela polícia nos idos da Ditadura. “Convém, às vezes, você sofrer” mostra que mesmo com toda a desesperança de receber de volta aquele ente querido que não esteja mais presente, o sofrimento mantém a chama do reencontro viva. “Mas depois de um ano eu não vindo, Ponha a roupa de domingo, E pode me esquecer” nesta passagem, Chico explica de uma forma explicita como as famílias ficavam quando seus parentes não voltavam logo. Os sujeitos nesta oração são a dor da espera, a tristeza e a revolta da perda pelo motivo mais fútil possível.
Acorda amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)
No complemento a estrofe anterior Chico alerta para os possíveis desdobramentos da perseguição que os “subversivos” e em especial suas famílias poderiam sofrer. Pois a pratica de tortura e de perseguição eram comuns na época. “Não discuta á toa, não reclame” qualquer reclamação ou insistência em dizer o que os policiais do DOPS queriam ouvir, era passível de represálias. “Não esqueça a escova, o sabonete e o violão” nesta frase, Chico além de relembrar do que é minimamente necessário na rotina da detenção, ele lembra do violão. Para que junto com ele continue a mandar essa mensagem de esclarecimento para a população. Desnudando os terrores que eram cometidos.